Começo da série de seis
partes que trazem o resumo do livro A
Origem do Alfabeto de Luiz
Carlos Cagliari, Mestre em Lingüística pela Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP) e doutor em Fonética pela Universidade de
Edimburgo, Escócia.
No
começo, eram os pictogramas. A escrita era feita com o desenho das coisas,
representando as palavras usadas para designar essas coisas.
A
palavra “olho” podia ser @, “casa” podia ser =.
Os nomes dos caracteres eram os nomes das
próprias coisas. Essa escrita, chamada ideográfica, era fácil de ser entendida
em muitas línguas. Com o passar do tempo, no entanto, viu-se que havia um
grande problema: os símbolos eram muito numerosos, assim como a relação de
coisas a serem representadas, que se tornavam cada vez mais complexas. Os
pictogramas cederam lugar, então, aos silabários, sinais representando os sons
das sílabas. Mudou o ponto de partida da escrita, que passou do significado
para o som das palavras, de ideográfica a fonográfica. Com isso, houve uma
redução enorme no número de caracteres necessários à composição de palavras.
E
uma outra modificação importante ocorreu: os nomes dos caracteres foram
perdendo a relação de conotação com as coisas representadas e adquirindo
significado próprio. Porém, o melhor tipo de caractere para representar os sons
ainda era o silábico, que trazia muitas redundâncias. Se existiam “letras” como
PA, BA, TA, AS, LA, RA ou PE, BE, TE, SE, LE, RE, podia-se simplificar mais
ainda e formar uma nova classe de caracteres, como A, E, P, B, T, S, L, R, etc.
Esta é, na teoria, a lógica do desenvolvimento do alfabeto. Mas na prática, as
coisas não aconteceram de modo tão perfeito, nem a escrita apareceu ao mesmo
tempo em todos os povos, o que torna essa história ainda mais fascinante.
Os
sistemas silábicos do Oriente Médio vieram da escrita Suméria (iniciada por
volta de 3200 a.C.), que se transformou em cuneiforme com o domínio da
civilização acadiana (2000 a 600 a.C.). Os dois pólos mais importantes de
irradiação dessa escrita foram as civilizações babilônica e assíria da
Mesopotâmia. Os acadianos, assim como os egípcios, falavam uma língua semítica,
ramo ao qual pertencem hoje o árabe e o hebraico.
Um
breve exame dessas línguas mostra que, nelas as palavras têm uma formação muito
especial, se comparadas às de outros ramos, como o anglo-germânico e o neolatino.
Nestes, as palavras apresentam uma idéia central, marcada pela raiz, e idéias adicionais,
marcadas por “sufixos” e “prefixos”. Assim a palavra “ilegalmente” tem a raiz
“ileg”, que traz a idéia principal, referente a “lei”, o prefixo “i”, que
implica uma negativa, e os sufixos “al”, que indica uma qualidade, e “mente”,
que se refere a um estado ou modo.
Nas línguas semíticas, as palavras trazem a
idéia central na combinação de três consoantes. Assim, no árabe, à seqüência
KTB é atribuída a idéia central de algo relativo a “escrita”. Outras idéias adicionais
são acrescentadas através da inserção de vogais diferentes junto às consoantes,
formando-se, desse modo, novas palavras. Por exemplo, katab significa “ele
escreveu” kaatib significa “escritor”; kitab significa “livro”. As vogais eram
facilmente recuperáveis na leitura, através do contexto.
A solução parecia satisfatória, uma vez que,
nas línguas semíticas, o sistema fonológico apresenta apenas três fonemas
vocálicos: I, U, A. Outras qualidades vocálicas eram facilmente detectáveis a
partir de regras tão simples quanto a que, em português, identifica o som do É aberto
em “belo”, “bela”, e o do Ê fechado em “Beleza”.
O sistema de representação consonantal dos
semitas duroumilênios: só a escrita egípcia durou três mil anos. É claro que os
sistemas de escrita não usam apenas um procedimento de representação. A própria
escrita egípcia, basicamente do tipo consonantal, utilizava também símbolos
ideográficos, determinativos semânticos e fonéticos.
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