domingo, 4 de dezembro de 2011

O Alfabeto Semítico


Os semitas das grandes civilizações estavam satisfeitos com seus sistemas de escrita. De um lado, no nordeste da África, predominava o sistema egípcio, e do outro, na Mesopotâmia, o sistema cuneiforme. Acontece, porém, que entre esses dois pólos de civilização viviam povos que não estavam comprometidos demais com essas culturas, mas que eram grandes comerciantes no Mediterrâneo. Eles logo perceberam que os silabários cuneiformes eram muito práticos (com poucos caracteres escrevia-se qualquer palavra), mas que a escrita egípcia tinha uma forma gráfica mais atraente para ser escrita e lida, útil sobretudo nas necessidades do dia-a-dia.
 Surgiu, então, uma escrita com caracteres egípcios para línguas do Oriente Médio. Como eram línguas que estavam sendo escritas pela primeira vez; nada mais conveniente do que unir as vantagens gráficas dos caracteres egípcios às vantagens funcionais da escrita cuneiforme que, há muito, já abandonara a maioria dos caracteres ideográficos em favor de um silabário com poucos caracteres.
 Os documentos mais antigos que nos chegaram dessa nova escrita foram descobertos em 1904-1905 pelo arqueólogo britânico Flinders Petrie, em Serabq el Khadin, no Sinai. Essas inscrições, chamadas de proto-sinaíticas, datavam de cerca de 1500 a.C. e foram estudadas minuciosamente pelo grande egiptólogo, também britânico, Alan Gardiner, que demonstrou sua ligação com os hieróglifos egípcios. A escrita proto-sinaítica certamente influenciou o que veio depois, mas faltam-nos documentos para estabelecer as pontes nos tempos e lugares corretos.
 No outro extremo do Oriente Médio os fenícios tinham na escrita um instrumento importante de sua atividade comercial ao redor do Mediterrâneo. Se, por um lado, quando viajavam valia a pena seguir cultura dos ricos egípcios, assírios e babilônicos, em casa a nova escrita era mais prática e, portanto, mais útil. Ao que tudo indica, a escrita fenícia já estava estabelecida no século XIII a.C., época dos documentos mais antigos. Os mais importantes são as inscrições do sarcófago do rei Ahiirâm de Biblos, que datam de cerca de 1300 a.C., e os da pedra Moabita, do rei Mesa, que datam de 842 a.C.
 No século XI a.C., o sistema utilizado na escrita fenícia já tinha passado por várias modificações e se fixado numa forma definitiva, com 22 letras apenas. Ela está na origem de muitas outras escritas, como a árabe, a hebraica, a aramaica, a tamúdica, a púnica (de Cartago) e, sobretudo, a escrita grega, da qual se derivou a latina, origem do alfabeto que hoje usamos.
Os semitas do Oriente Médio puseram em prática aquela idéia de formar uma escrita com poucos caracteres e com formas gráficas de fácil desenho. Para isto, fizeram uma lista de palavras, de tal modo que cada uma delas começasse pelo som de uma consoante diferente, e sua sucessão representasse toas as consoantes. Além disso, o significado dessas palavras deva se associar diretamente a hieróglifos egípcios que pudessem ser usados para representar os sons iniciais. A primeira palavra da lista era Aleph (boi) e para representá-la foi escolhido o hieróglifo que era o desenho de uma cabeça de boi.
 A segunda palavra foi Beth (casa), que ficou associada ao hieróglifo que representava uma casa. Obviamente, em egípcio, esses hieróglifos estavam associados as mesmas idéias mas não aos mesmos sons. Por exemplo, “casa” em egípcio é per e não beth.
 Feita a tabela com os caracteres, os significados e os nomes, estava criado o alfabeto. Agora, o hieróglifo egípcio que representava “casa” e que era associado às consoantes PR, passou a ser o caracter que representava apenas o som de “B” inicial da palavra beth, a qual passou, por sua vez, a ser o nome da letra. Esse procedimento estendeu-se a todas as palavras da relação, surgindo deste modo o alfabeto.
 O novo sistema de escrita assim constituído, além de escrever só consoantes, tomou-se uma forma de escrita puramente fonética. Agora, para escrever, era preciso decompor as sílabas em seus elementos consonantais e vocálicos, registrando com os novos caracteres apenas os elementos consonantais. Um princípio acrofônico era a chave para decifrar e escrever o alfabeto: bastava saber o nome das letras, reconhecer o som consonantal e usar o caracter correspondente para escrever as consoantes que iam sendo detectadas nas palavras a serem escritas.
 A idéia parecia boa demais e de fato iria servir de modelo, muitos séculos depois, para que os lingüistas criassem os alfabetos fonéticos e pudessem registrar e ler os sons de todas as línguas do mundo, mesmo daqueles que nunca tinham sido escritas. Porém do ponto de vista do uso, como veremos adiante, esse novo sistema encontrou um obstáculo intransponível na variação dialetal da fala das pessoas. Teve então que sofrer uma modificação básica, justamente no aspecto que parecia mais promissor, a representação fonética dos sons da fala.
 Formas derivadas da escrita fenícia foram encontradas em muitas regiões do Mediterrâneo. Documentos provenientes da Espanha (El Pendo), da França (Glozel), de Portugal (Alvão), da Itália e até da Iugoslávia têm inscrições (não decifradas) em caracteres cuja forma gráfica lembra de perto a escrita fenícia. Em outros lugares, como na Líbia, na Mesopotâmia, na Turquia e na Grécia, a escrita fenícia foi adaptada às línguas locais e passou a ter um amplo uso social.

Nenhum comentário:

Postar um comentário